Os dias
seguintes após a ida de mamãe foram tristes... acho que chorei por uma semana
pela falta dela e de Láila (por quem nem consegui chorar pq mamãe chegou no dia
seguinte de sua partida)... foi triste mas passou J
31 de
Janeiro – O dia da tragédia
Na
madrugada de 31 de janeiro acordo com Toy chorando de dor... não era sonho, ele
chorava mesmo. Fiquei desesperada e comecei a massagear ele... pensei seria dor
na coluna por causa dos 5 anos em que ele anda com apenas 3 patas? Lembrei que
o veterinário ortopedista daqui disse que quando cães principalmente pequenos
gemem de dor de uma forma bem aguda, a probabilidade de ser algo no pescoço é
grande. Então massageei bastante o pescoço dele, e ele foi se acalmando. E deu aquela
vontade de ir ao banheiro... levantei ainda agitada do susto, e senti tudo
girar e ficar preto. Sentei na cama de novo... pressão baixa? E a vontade de ir
ao banheiro desesperou e eu corri pro banheiro, so que quando entrei , não me
lembro o que aconteceu (se desmaiei, se estava sonolenta ainda, se
escorreguei), só sei que quando dei por mim tinha batido de cara na parede...
cabeça na parede e nariz no suporte de papel higiênico... senti a pressão no
nariz e o sangue jorrar pela roupa, parede, chão (como nos filmes deTarantino)... Não estava entendendo o que
havia acontecido, só queria gritar “Mãaaae” “Paaaaai” “ Amooooorrrr”.... e
antes da voz sair eu lembrei que tava sozinha ali, no banheiro, no ap, em
berlin, Europa... a 9000km de quem podia me ajudar... sem familia, amigos, amor...E bateu um desespero tão
grande que eu só fiz chorar... e quanto mais eu chorava mais sangue saia...
Chorei
chorei, até o banheiro ficar com uma nova cor, vemelho, então me levantei ainda chorosa e resolvi
fazer algo sozinha... Tylenol 750 + gelo... ao menos até eu processar o que
tinha acontecido e o que eu ia fazer. Me deitei na cama, e cochilei... com
aquele gelo na cara... como pode?
Enfim,
quando o dia clareou... pensei tenho que ir num hospital. Mas que hospital? Não
sei onde tem hospital aqui perto... O único que conheço é o Charité que eu vi
durante as visitas ao Reichstag... mas fica longe pacas. Ligar pro 911? 190?
Qual o número da emergência aqui? Keine Ahnung (não faço a mínima idéia)...
Entao mandei uma mensagem pra Bia, estudante brasileira que tá fazendo graduação
sanduiche aqui (acho q já falei dela antes) e ela conseguiu o endereço de um
hospital pertinho da minha casa (e da dela tb) e fui pro hospital (de bus e
depois metrô). A essa hora eu tava dopada, já tinha limpado o sangue todo e nem
tava inchada ainda... Então parecia que eu tinha chorado a noite toda (olhos
inchados) e que tinha um cortezinho no nariz. Mas não foi isso mesmo que
aconteceu??? A maior dor eu acho foi da solidão...
Hospital: Sankt
Gertrauen Krankenhaus (Krankenhaus – hospital... enfermeira é Krankenschwester...
schwester é irmã... ou seja irmã das doenças? rsss)
Chegando lá com todo o sangramento sob controle, a médica felizmente falava inglês e me perguntou o que havia acontecido. Comecei a explicar e quanto me lembrei da sensação de estar sozinha ali sem ninguém pra me ajudar ou cuidar de mim, danei a chorar de novo. E choro = sangue.
Tadinho do Assistente de Médico, acho q nunca viu tanto sangue na vida dele... olhos arregalados e não sabia o que fazer. A médica veio com papel e mandou eu segurar nas narinas, mas com a cabeça pra baixo... Normalmente falamos pra pessoa colocar cabeça pra trás né? Pois é, aqui ela disse que é melhor que o sangue saia do que eu engolir... segundo ela, engolir o sangue pode trazer varios outros problemas depois. Então me enfiaram esse tampão e fiquei sendo levada pra lá e pra cá de cadeira de rodas...
Interessante pq logo que cheguei na médica, e ela percebeu que eu estava um pouco tonta, me colocou numa cadeira de rodas com minha ficha pendurada... uma espécie de checklist com todo o planejamento logistico e médico que eu teria no hospital.
Assim, quando ela acabou, me deixou no corredor (lembrei do Hospital São Lucas... mas claro bem bem bem mais vazio, limpo, humano). E aí o proximo processo era Transporte para Exame. Veio um rapaz, se identificou, simpaticamente me levou pra sala do exame. A pessoa que me recebeu lá, assinou a prancheta (agarrada na minha cadeira de rodas) do tipo "recebi". E aí fiz rx do nariz. Quando terminou, chamou o rapaz do transporte (outro), que assinou do tipo "peguei a mercadoria"... e me levou pro proximo processo "Consulta com especialista". O residente (médico assistente) assinou "recebido", fiquei esperando num espaço com revistas etc... daí me aproximei de uma senhora que estava aguardando atendimento tb. Percebi que ela tinha um tampão em um dos olhos e o outro ela devia enxergar muito pouco... trocamos algumas palavras (só aquelas essenciais afinal ela tinha dificuldade de falar tb). Pensei "como a gente fala demais... quantos ruidos né, meu amigo e mestre Carlos?" Quando falamos menos, sentimos mais. Pude sentir muito o que essa senhora queria, sentia e precisava naquele momento... pq deixamos de ver, ouvir, falar...
Enfim... minha primeira experiência num hospital alemão (não foi a única pois 1 semana depois fui num hospital em Hamburgo pois minha cabeça doía muito da pós pancada no wc) foi até que agradável... aprendi sobre Logistica Hospitalar (planejamento, organização e eficiência), aprendi o que é HNO - Hals Nasen Ohr (Garganta, Nariz, Ouvido = otorrino), pratiquei meu alemão e inglês e pude praticar a solidariedade, o doar, o sentir... Até que no final deu tudo certo... Nariz não quebrou, estou com nariz bonitinho de novo, tenho o próprio vento gelado de Berlin pra sarar ele e meu coração apesar de doído pela solidão está mais aquecido. Foi só um susto!






























