Sou praticante do Budismo há cerca de 2 anos. Neste mesmo período, após diagnóstico de uma hérnia de disco, meu ortopedista me recomendou o Pilates como forma de tratamento. Confesso que, para mim, este método era desconhecido, tinha uma vga idéia de se tratar de uma técnica cujos exercícios eram direcionados à terceira idade e com aparelhos que mais pareciam máquinas de tortura. Deixando os meus pré-conceitos de lado, entretanto, resolvi seguir um dos conselhos de Buda “Experimente. Se for bom para você, continue, usufrua. Se não for, deixe de lado.”
Procurei um bom Studio Pilates, bem recomendado, com profissionais qualificados e sérios. Logo no primeiro dia de aula senti que a fisioterapeuta me ajudaria a cuidar do meu bem estar ou em “estar bem”. Conversamos não só das dores que me levaram até lá, mas também do meu estilo de vida – estressado, com problemas respiratórios (falta de ar, alergias), tensões musculares, dificuldades em dormir, dentre outros. Comecei a perceber que o Pilates abrange não só exercícios em sala de aula e sim práticas que eu poderia incorporar ao meu modo de viver e cujos benefícios seriam bem maiores do que simplesmente acabar com minhas dores na coluna.
De forma similar, muitas pessoas acreditam que o budismo pode ser encarado como uma religião, filosofia ou como é o meu caso, como um modo de viver – zen, ou seja, um conjunto de práticas, diária e incorporadas ao meu dia-a-dia. Assim, desde este primeiro momento, entendi que minhas duas novas práticas poderiam se complementar e transformar meu jeito de viver a vida mais zen e saudável.
O Ambiente:
O ambiente de um Studio Pilates que realmente incorpora o método desenvolvido por Joseph Pilates na Alemanha por volta de 1918, tem um pouco de similaridade com um jardim zen, um mosteiro e uma Sangha - nome dado a uma comunidade de praticantes do Budismo. Normalmente trata-se de uma casa, bem acolhedora, um local bem cuidado, que estimule o contato com a natureza, com uma música/sons lentos que nos auxilia a desligar da nossa loucura do dia-a-dia, corrido, barulhento, tenso, nos introduzindo a uma realidade de paz. Além disso, apesar dos aparelhos do Pilates não serem muito “atrativos”, à medida que passamos a conhecer e experimentar esse desconhecido, sentimos seus reais benefícios e bem estar, superando pré-conceitos e passando a usufruir das boas sensações que o “antigo novo” nos oferece. O mesmo acontece quando entramos em uma Sangha pela primeira vez, encontramos pessoas em silêncio, sentadas em pequenas almofadas ou em bancos de madeira, parecendo desconfortáveis à princípio, percebemos um som suave ao fundo, incenso e velas aromatizando o ambiente, pouca luminosidade. Bem diferente do mundo “lá de fora”. Este estranhamento e incômodo algumas vezes deve-se ao nosso corpo e sentidos não estarem acostumados a tanto silêncio – silêncio de se ouvir, de se ver, de se cheirar, de se sentir.
Os Princípios
O método de movimentos do Pilates se baseia em alguns princípios. O primeiro deles é o da Força do Centro, constituído por um conjunto de músculos do abdômen, parte inferior das costas e dos glúteos. Este local é considerado um centro de força do corpo humano para onde todos os exercícios de Pilates se focam no intuito de fortalecê-lo e proporcionar uma estabilização do dorso permitindo que o corpo esteja, durante os movimentos, ereto e alinhado, evitando compensações e contemplando a simetria. Algumas técnicas orientais também reconhecem este centro de força. O Budismo o trata não só como um centro de força física mas principalmente de força espiritual, um local em que concentramos nossas energias de maneira a nos estabilizamos e encontrarmos nosso equilíbrio interior.
O segundo princípio é o da Respiração. Joseph Pilates afirmava que freqüentemente respiramos errado e usando apenas uma fração da capacidade do pulmão. Por isto, em seu trabalho, a respiração toma uma posição primordial em todos os movimentos. No Budismo, tratamos a respiração como algo essencial para nossa prática. Isso parece óbvio, afinal, precisamos do ar para sobrevivermos. Mas quando observamos nosso dia-a-dia, com profunda compreensão, percebemos que o óbvio é tão óbvio que nos esquecemos de dedicarmos a devida atenção a ele. Na meditação, uma das formas de nos concentrarmos durante o zazen – meditação sentada, é levando a atenção para o movimento da respiração, o sobe e desce de nosso diafragma. A respiração diafragmática, ou seja, aquela em que respiramos com o abdômen e não com o tórax é uma outra similaridade entre os dois métodos. Este tipo de respiração faz com que nosso corpo centralize as energias no “Power House” ou Chi oriental, muito citado no Budismo, na Acupuntura, na Massoterapia, no Feng Shui, nas artes marciais e outras terapias orientais.
O terceiro principio do Pilates é o da Concentração. Assim, os exercícios devem ser executados sempre com muita atenção, voltada para os músculos que estão realizando o movimento. Segundo Pilates, se sua mente e seu corpo estiverem trabalhando juntos, os movimentos irão ter uma maior eficiência. Para o Budismo, a concentração correta é o estado da mente unipolarizada, isto é: mente voltada para um único ponto, cultivando a alegria, tranqüilidade e amor em tudo que fazemos. Este é um dos passos para o Nobre Caminho Óctuplo do Budismo zen, cujo objetivo é a cessação do sofrimento.
No Pilates, a Precisão é o quarto princípio a ser seguido que objetiva evitarmos qualquer tipo de compensação, ou desequilíbrio corporal, contemplando o alinhamento físico, mental, emocional. No Budismo comparamos este princípio à busca do Esforço Apropriado que significa nos esforçarmos para fazer o bem e consertar o que está equivocado, fora de equilíbrio. Isso refere-se tanto ao físico como na mente-corpo, tratada pelo budismo como um só, ou seja, duas partes extremamente interligadas e que devem ser analisadas e tratadas em conjunto.
O quinto princípio do Pilates é o de Controle, que está diretamente relacionado ao princípio da Precisão. Trata-se da realização dos movimentos com lentidão, observando o recrutamento dos músculos. Os movimentos devem ser harmônicos de forma a evitar-se gasto desnecessário de energia ou contrações musculares inadequadas ou indesejáveis. A prática continuada do Controle no Budismo engloba atenção correta e plena para nosso corpo, sensações, pensamentos e sentimentos, nos permitindo observar de maneira suave e equilibrada a vida como um cenário em que somos ao mesmo tempo observados e observadores.
O sexto princípio é o do Movimento Fluido. Joseph Pilates gostava de resumir seu método como "um movimento fluído a partir do centro de força para fora. Qualquer movimento deve ser realizado da forma mais harmônica possível, contínuo e ritmado. O praticante deverá estar sempre em uma posição de alinhamento corporal e atento a possíveis compensações”.
Afinal, ele está falando do seu método, da meditação ou das nossas práticas diárias?
Prefiro compreender como a terceira opção, que engloba as outras duas. Em nossa vida cotidiana, cheia de pressões, conflitos e superficialidades, é ainda maior a importância de realizarmos movimentos físicos, mentais e/ou emocionais suaves e equilibrados, centrados em uma força interior. A eterna busca pelo equilíbrio passa primeiramente em nos conhecermos melhor e refletirmos sobre questões da vida: o que faz bem e mal para mim? Como é a minha reação quando atingida por alguma emoção forte? Meu corpo se contrai? Como reajo? Consigo manter o passo da Palavra Correta do Caminho Óctuplo?
Isto é o que Buda tenta transmitir a todos nós: Independente se estamos fazendo Pilates, trabalhando, comendo ou limpando nossa casa, podemos agir de forma equilibrada, com atenção plena e dedicação. Este é o caminho para a felicidade!